domingo, 8 de maio de 2016

O JULGAMENTO

- Todos em pé!

Um juiz, com sua vestimenta negra, uma peruca branca, testa longa, olhos pequenos, nariz arredondado, lábios grandes e orelhas pontiagudas. A barriga saliente ressaltava mesmo com o corpo coberto. Seu andar parecia mais um sino, balançando da direita para a esquerda, da esquerda para direita. Ele se senta, olha para todos por cima dos pequenos óculos redondos e bate na mesa com um pequeno martelo de madeira.
Todos se sentam.

- Caso 672.09ABC. – Uma voz forte anuncia. – Dona Maria das Dores contra o Tempo. Que o réu se identifique.

O Tempo se levanta com seus olhos pequenos e assustados. Sua estatura era bem abaixo da média, cabelos curtos e brancos, barbas longas e brancas. Ele usava um chapéu grande para sua cabeça, de cor amarela, e tinha um bolsa marrom pendurada nos ombros com canetas, papeis e instrumentos de cálculos.

- A acusação, se identifique! – Continuou a voz.

Dona Maria das Dores se levantou com um lenço secando as lágrimas que corriam em seus olhos. Sua dificuldade em se levantar deixou todos da sala comovidos, seus poucos cabelos eram brancos, suas roupas simples estavam puídas. Em uma das mãos ela segura um maço de fotos com força contra o peito grande.

- Dona Maria das Dores tem a palavra. – Continua a voz.

Naquele povoado não se usavam advogados, mas todos tinham o direito de se defender. Isso acontecia porque acreditavam que parte dos problemas e conflitos estavam na falta de bondade e na capacidade de interagir de maneira adequada com os outros. Os anciãos conselheiros e responsáveis pelo judiciário acreditava que colocar uma pessoa treinada para articular poderia gerar penas injustas uma vez que quem tivesse o melhor advogado teria mais sucesso no tribunal.

- Senhor Juiz, eu venho aqui para falar por mim e por todo o nosso povo. Talvez, até por todo mundo. É! Por todas as pessoas do mundo!

O juiz, que até então lia as notas do processo à sua frente, levanta a cabeça, tira os pequenos óculos e olha indagativamente para Dona Maria das Dores. A sala fica em silêncio.

- Senhor – continua Dona Maria das Dores – o Tempo vem agindo contra a nossa sociedade há anos e anos. Chegou a hora de alguém fazer alguma coisa.

O Tempo abaixa a cabeça e solta um suspiro triste.

- Eu acuso o Tempo de roubo, apropriação indevida da vida de todos nós!
- Ohhhh! – Ecoa na sala o espanto dos presentes.
- Réu, como você se declara? – Interrompe a voz.
- Inocente. – A voz do Tempo é serena, porém firme.
- Faça-se mais clara, Dona Maria das Dores. – A voz forte e rouca do juiz leva todos os olhares de volta à acusação.
- Eu trabalhei a minha vida toda na pensão. Cozinhando, limpando, recebendo as pessoas da melhor forma que podia. Tive meus filhos e cuidei deles. Tive meu marido e cuidei dele até a morte.
- Ohhh.. – Um tom de compaixão toma o ambiente.
- Sei que o ser humano tem que procriar, fiz minha parte e cuidei de todos até eles crescerem. Esperei eles estarem grande para partirem, esperei cada noite e cada dia por isso, cada choro, cada problema que eles me davam, eu só pensava que eu precisava cuidar bem deles para eles crescerem e cuidarem de sua própria vida.

Dona Maria das Dores pega uma das fotos do maço e leva para a mesa do juiz. Era a foto dos seus dois filhos, grandes, fortes e bonitos.

- Então a hora chegou e eles partiram. Meu marido foi adoecendo com a ausência dos meninos. Perdeu a visão e com o tempo também perdeu o pensamento. Ele não sabia mais das coisas. Às vezes ele prendia a galinha na coleira e colocava o cachorro para chocar os ovos.

Dona Maria das Dores vai novamente até o juiz e lhe entrega uma foto de seu marido com uma das galinhas devidamente presa na coleira.

- Cuidei dele até o final. Porque eu sabia que eu tinha que cuidar bem do meu marido para depois ter a minha vida. E ele partiu. Eu peguei cada centavo que economizei para poder viver.  Mas, olhe! Olhe bem para mim! Agora não consigo mais, não consigo mais realizar meus sonhos, não consigo mais conhecer os lugares que listei, não consigo mais dançar sem ter que voltar para casa para preparar o jantar. Não consigo mais porque meu corpo está velho. E tudo é culpa dele!! – Dona Maria das Dores aponta para o Tempo.

- Ohhhhhhh – ecoa na sala.
- A culpa não é minha.  O andar da vida acontece para todos.
- Você roubou de mim a juventude, a saúde. Tirou minha beleza e deixou no lugar marcas no meu rosto e mãos. Você tirou a minha esperança e colocou no lugar dores em cada parte do meu corpo. Você tirou meus planos e substituiu por cabelos brancos.
- Não. Não a senhora não entende.
- Não! Eu não entendo. Eu fiz tudo o que eu tinha a obrigação de fazer, cumpri minha obrigação para poder ser feliz um dia. E esse dia? Cadê esse dia se os meus dias são cada vez mais cinza e trêmulos?
- Quando eu tinha juventude – continua Dona Maria das Dores – eu não podia viver meus sonhos porque tinha obrigações que tomavam todos os meus dias... e a noite eu deitava o corpo pesado na cama para conseguir acordar cedo para no dia seguinte cumprir todas essas obrigações.
- Mas.... – O Tempo tenta se manifestar.
- E agora, agora que estou sozinha, agora que não tenho mais obrigações para ocupar todo o meu dia, agora que posso me dedicar aos meus sonhos, aos meus gostos, ao que deixei de lado...agora eu estou velha! Olha! Olha para mim! – Grita.
- Mas o que você não entende é que eu não fiz nada! – Responde o Tempo um pouco mais exaltado com um desespero nos olhos diante dos olhos de incompreensão de todos na sala.
- Senhor Tempo, uma vez que o senhor é o responsável pela quantificação de vida de todos nós desta sala, vejo que a Senhora Maria das Dores possui pontos fortes para condena-lo. – Diz o Juiz. – O que o senhor tem a dizer a seu favor?
- Senhor, eu apenas sou responsável, bem como o senhor mesmo disse, em quantificar a quantidade de vida, não em qualificar a vida. Eu crio ordem, um sistema, para as pessoas poderem utilizar suas vidas com mais facilidade e de forma igual a todos, facilitando a vida em sociedade.  Imagina senhor, como seria se dia e noite acontecessem em momentos diferentes para cada um aqui nesta sala! Com certeza nem esta audiência conseguiríamos realizar sem termos algumas confusões.
- É..... – Ecoa pela sala.
- Eu apenas recebi a missão de ser um dos responsáveis em ordenar o caos. E esse foi o projeto que eu criei.

Todos ficam em silêncio por alguns segundos. O juiz vira e conversa com um grupo de anciãos que estão sentados em poltronas azuis.
O clima na sala é tenso. Pode-se ouvir pessoas argumentando suas opiniões em voz baixa. Mas um monte de vozes baixas juntas, assim como qualquer outra coisa em grupo, cria força e em poucos minutos a sala é completamente tomada pelo barulho dos cochichos.

- Todos em seus lugares! – Soa a voz assustando a audiência que se aquieta imediatamente. O juiz irá dar seu parecer.

O juiz volta-se de frente para a audiência. A sala está em silêncio.

- Senhor tempo, eu o declaro inocente.

O Tempo abre um sorriso calmo. A sala fica em dúvida se deve comemorar ou não. Muitos ainda não entenderam muito bem a função do Tempo.

- Como? Mas como? Olha o que ele fez comigo! Eu esperava justiça! Olha o que ele fez comigo! Você não vê? Você não enxerga? – Grita Dona Maria das Dores.

- Dona Maria das Dores, e todos aqui presentes, a vida não é o que Tempo fez de vocês, mas sim o que vocês fizeram dele!

- Sessão encerrada! – Finaliza a voz ao som da batida do martelo do juiz.